Satya (veracidade) num mundo de aparências?


Satyapratiõóháyá, kriyáphalákõayatvam || 36 || Com o estabelecimento da autenticidade [satya], há o domínio sobre as ações e seus frutos.

O segundo e, na minha percepção, um dos Yamas mais difíceis de respeitar. Primeiro porque na superfície, vivemos em negação e não nos consideramos mentirosos compulsivos. Mas... é o que somos. Mas por que mentimos, se desde pequenos ouvimos de nossos pais que mentir é errado, moralmente condenável e traz consequências terríveis - como ficar de castigo, por exemplo? Podemos aqui analisar a anatomia psicológica da mentira, mas se não nos aprofundarmos na raiz de todo o sofrimento, avidya (ou ignorância existencial - de quem ou do que somos), corremos o risco de fazer uma análise muito superficial.

Vamos então nos referenciar no mesmo trabalho, os Yoga Sutras, onde Patanjali nos diz o seguinte sobre avidya:

anityāśuci-duḥkhānātmasu nitya-śuci-sukhātmakhyātir avidyā || 5 ||

“Ignorância (ou falta de sabedoria) é confundir o impermanente com o eterno, o impuro com o puro, a fonte de sofrimento com a fonte de felicidade e o ego (individualidade) com o Eu verdadeiro (o não individual)"

Sabe o que acontece em função dessa ignorância? Nos tornamos reféns da programação inconsciente. Ao não reconhecermos quem somos e nem qual o nosso propósito como seres vibracionais, que funcionam ao mesmo tempo em múltiplas - e invisíveis aos olhos - dimensões, nos identificamos com o corpo, com o ego, com a mente, o intelecto e as emoções, ou seja, com o nosso personagem. E nessa identificação, obscurecidos pelo véu de Maya, buscamos desesperadamente por objetos de experiência (de ordem física como posses ou intangível como relacionamentos), escolhendo os que sejam agradáveis e nos dêem essa sensação de completude, de felicidade. Ou seja, nos confundimos e somos seduzidos a pensar que precisamos de algo fora de nós que nos faça sentir melhor, dentro de nós. Nesse processo, tentamos o tempo todo equalizar nosso sentido de valor interno através do controle das situações externas, porque temos medo do desconhecido. E nessa tentativa de controle, fica fácil desrespeitar o princípio da veracidade (e muitos outros princípios elevados) em nossa rotineira lida com os relacionamentos e situações. O problema é que estamos tão acostumados a fazer isso, que muitas vezes nem percebemos o desalinhamento energético (ou seja, que se estivermos atentos, pode ser sentido) que surge ao oferecermos ao campo dharmico algo diferente da pura verdade (e, ainda que seja uma verdade parcial, de acordo com as habilidades de percepção que temos em determinada fase de nossa jornada, devemos expressá-la).

Mas vamos então à prática, já que Sadhana Pada é o capítulo que nos convoca a colocar todo o conhecimento em ação!

Te convido a observar se no seu cotidiano você toma alguma dessas decisões: 1. Se compromete com algo, mas desiste. 2. Dá sua palavra, mas muda de idéia. 3. Combina um horário, mas chega atrasado. 4. Fala sobre o que acha que é correto, porém, não vive sob aquelas regras. 5. Mente, no intuito de encobrir algum fator que considera desfavorável à boa impressão que quer manter de si mesmo, para que assim possa controlar os resultados e continuar se sentindo "bem" consigo mesmo. 6. Omite informações, com o mesmo intuito. 7. Não fala o que está realmente pensando e sentindo numa situação, apenas para não se envolver num potencial conflito. 8. Exagera nos detalhes que considera "interessantes" numa narrativa e desmerece outros ou enaltece detalhes morais positivos sobre si mesmo.

Se identificou? O que fazer então? Primeiramente, precisamos nos expor ao conhecimento. Dessa forma estamos dando à mente o alimento que será a fundação para a mudança de atitude e para novas experiências. Precisamos saber porque fazemos o que fazemos, o que isso gera em nossas vidas e porque nos é interessante mudar, já que mudar é contrário à nossa biologia, que busca sempre pelo menor gasto energético possível, em forma de respostas prontas, padrões, hábitos, repetições. Mudar significa que temos que ser internamente maiores e melhores que as condições do nosso ambiente e das circunstâncias da nossa vida e ter a força de oferecermos algo diferente.

E eis aqui o porque, segundo Patanjali:

A segunda frase (sutra II, 2) afirma que a finalidade do Kriya Yoga (Yoga da Ação) é a de produzir o Samadhi (absorção e elevação da consciência dentro do próprio processo de cognição, que prepara para a meditação verdadeira) e assim atenuar as perturbações (kleças) que dificultam nosso acesso à natureza de citta (a natureza verdadeira do Ser).

Ou seja, perturbações essas que nos mantém reféns de uma existência inconsciente e em sofrimento constante, o que nos impulsiona a buscar alívios temporários em objetos… etc., etc.., (todo aquele processo descrito no início do artigo). E a terceira frase (sutra II, 3) enumera essas perturbações ou aflições (kleças): falta de sabedoria (avidya), egoidade (asmita), desejo (raga), aversão (dvesa) e apego à vida (abhiniveça) ou medo da morte (do qual derivam todos os outros medos).

A partir do conhecimento, começamos a nos observar, a nos tornar conscientes de nossas ações. No momento em que começamos a observar esses estados de mente e corpo, não somos mais o programa, somos a consciência, o sujeito observando o programa e estamos começando a objetificar o ser subjetivo e isso já é uma vitória e o início da transformação verdadeira.

A terceira fase então é aplicar o conhecimento de forma prática, no dia a dia, através de ações conscientes. Para isso estabelecemos um Sadhana (implementação, demonstração, prática).

Nesse segundo capítulo (Sadhana Pada), estão descritos os 8 passos ou Angas (Astangayoga: Yama, Niyama, Asanas, Pranayama, Pratyahara, Dharana, Dhyana e Samadhi) que tem a finalidade de produzir o Samadhi e minimizar as perturbações para que possamos alcançar o estado de Kaivalyam (objetivo final do Yoga (ou “a destruição de todo o apego à diferenciação, e a vivência da integração total do indivíduo com tudo o que existe, como se fossem uma mesma e única existência absoluta”) e tudo o que é proposto nessa parte do texto é uma versão prática do que foi examinado conceitualmente no primeiro capítulo, Samadhi Pada, para indicar ao praticante o que ele deve fazer para avançar em seu caminho de purificação.

Portanto como vemos, seguir Yamas (restrições morais) é o início de um longo caminho de esforço sobre si mesmo (tapas) e determinação. Mas por isso mesmo, ainda que os resultados prometidos ao final da jornada sejam inspiradores, devemos focar nos pequenas conquistas que acontecem ao longo do caminho, onde já desfrutaremos de uma das mais importantes metas de curto prazo: uma mente pacífica e clara (Sattvica), já que cada vez que aplicamos um dos Yamas, sentimos a sensação de dever cumprido e abandonamos aquele cenário, sabendo que fizemos o que tinha que ser feito em dada situação, de acordo com o que nos foi exigido do campo Dharmico.

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